Quando a seca apaga a luz: como a crise hídrica ameaça países dependentes de hidrelétricas
Secas cada vez mais frequentes reduzem a geração de energia, pressionam cofres públicos e colocam em risco a segurança energética de mais de 50 países no mundo. Especialistas alertam: o problema já não é climático — é econômico e político.

A água que movimenta turbinas e ilumina cidades está se tornando um recurso cada vez mais incerto. Dados recentes indicam que mais de 50 países dependem da energia hidrelétrica para ao menos 25% de sua eletricidade, tornando-se altamente vulneráveis a períodos prolongados de seca. Em alguns deles, como Zâmbia, Noruega e Albânia, esse percentual ultrapassa 70% da matriz elétrica.
O impacto já é visível. Somente no primeiro semestre de 2023, a produção hidrelétrica global caiu 8,5%, segundo dados internacionais de energia. Em países específicos, a perda foi ainda mais severa: a China registrou queda superior a 20% em regiões fortemente afetadas por estiagens extremas.
Prejuízo bilionário e efeito dominó
A redução na geração não afeta apenas o fornecimento de energia — ela atinge diretamente as finanças públicas. Hidrelétricas exigem investimentos bilionários e contratos de longo prazo. Quando a água falta, a receita despenca, mas os custos permanecem.
Um estudo publicado na revista Nature Communications estima que a perda anual média de receita em países dependentes de hidrelétricas pode ultrapassar US$ 18 bilhões, considerando custos adicionais com importação de energia, acionamento de termelétricas e subsídios emergenciais.
“Quando a geração cai drasticamente, os governos precisam cobrir o rombo”, explica Rosa Isabella Cuppari, pesquisadora da Universidade da Carolina do Norte e autora do estudo.
“Isso pressiona o orçamento público, aumenta déficits fiscais e pode até provocar rebaixamentos na nota de crédito dos países.”
Rosa Isabella Cuppari
Segundo a pesquisa, menos de 5% dos países de baixa e média renda possuem grau de investimento, o que torna qualquer choque climático um gatilho para crises econômicas mais amplas.
Energia mais cara, contas mais altas
Em períodos de seca, muitos países são obrigados a recorrer a fontes alternativas mais caras e poluentes. O custo da eletricidade pode subir rapidamente, afetando indústrias, serviços essenciais e consumidores finais.
“Há um efeito cascata”, afirma Gregory W. Characklis, especialista em gestão de riscos climáticos.
“Menos água significa menos energia barata. O resultado são tarifas mais altas, maior uso de combustíveis fósseis e aumento das emissões de carbono.”
Gregory W. Characklis,
Em cenários extremos, a escassez de energia leva a apagões programados, afetando hospitais, sistemas de abastecimento e atividades econômicas estratégicas.
Para enfrentar o problema, pesquisadores propõem uma solução inovadora: o compartilhamento global de riscos financeiros. A ideia é simples — países com regimes climáticos diferentes podem dividir os prejuízos por meio de mecanismos financeiros, reduzindo custos individuais.
O estudo mostra que a criação de um fundo internacional de proteção contra secas poderia reduzir os custos de gerenciamento de risco em até 62%, quando comparado à estratégia tradicional de manter grandes reservas financeiras nacionais.
“Secas raramente ocorrem ao mesmo tempo em todos os países”, explica Tamlin M. Pavelsky, coautor da pesquisa.
“Ao agrupar riscos, é possível proteger mais países gastando menos recursos.”
O futuro da energia depende da água — e das decisões políticas
Com as mudanças climáticas intensificando eventos extremos, a dependência excessiva de uma única fonte energética torna-se cada vez mais arriscada. Especialistas defendem diversificação da matriz elétrica, investimento em energias complementares e novas ferramentas financeiras para proteger economias vulneráveis.
“O desafio não é abandonar a hidrelétrica, mas torná-la parte de um sistema mais resiliente”, resume Cuppari.
“A água continuará sendo essencial — mas não pode ser o único pilar.”
Enquanto o mundo corre para cumprir metas climáticas, a pergunta que permanece é clara: quem vai pagar a conta quando a água faltar?
Mais informaçóes
Cuppari, RI, Pavelsky, TM & Characklis, GW. A agregação global de riscos mitiga o risco financeiro da seca em países dependentes de energia hidrelétrica. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-025-67082-z